segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

10 MITOS SOBRE A PSICANÁLISE



O paciente fala deitado no divã e o analista só escuta, sentado numa poltrona confortável. Cliché no cinema, a cena nem sempre é exatamente essa nos consultórios. Aqui, toda a verdade sobre o folclore que envolve essa relação tão delicada. Por Sílvana Tavano


Todas terapias têm a mesma meta: lidar com a angústia e com o sofrimento, ajudando o paciente a ser mais feliz e a encontrar um sentido para a vida. Mas cada modalidade busca esses objetivos à sua maneira -em alguns casos, a pessoa vai dramatizar e reviver situações pelas quais passou; em outros, vai tentar desatar nós desbloqueando tensões físicas. Na psicanálise, a fala é o fio condutor de um processo de autoconheci-mento.Tudo começou com Freud, no início do século passado: ao receber pacientes que já tinham consultado todos os médicos de Viena, sem sucesso, Freud percebeu que o ato de falar, sendo ouvido por alguém, era terapêutico. Mais do que isso, esse discurso podia trazer à tona conflitos que estavam em outro lugar além da mente racional a esse lugar; ele deu o nome de in-consciente. "Uma parte da mente à qual não temos acesso, mas que é capaz de produzir efeitos, como neuroses, angústias e sintomas físicos", explica a psicanalista Mania Deweik, de São Paulo. A seguir, três especialistas falam sobre os mitos que cercam o assunto, mostrando que muito do que se diz sobre a psicanálise é um exagero. 

1- O psicanalista nunca fala durante a sessão? 
"Eu falo e escuto, ensino, aprendo e também me divirto com meus pacientes", diz a psicanalista Mania Deweik. Segundo ela, talvez esse mito tenha surgido quando a obra de Freud foi traduzida do alemão para o inglês. "Ele escrevia de maneira literária, inspirava-se nos poetas, na tragédia grega,e seus discípulos ingleses entenderam que era preciso dar uma forma mais científica à sua teoria.Esse pode ter sido um dos fatores que contribuíram para a ideia de neutralidade."Na prática, existem psicanalistas que mantêm uma atitude mais sisuda. "E uma questão de estilo pessoal.Tem que seja mais reservado e há os que são expansivos. Mas isso não é uma regra da terapia", diz o psicanalista gaúcho David E. Zimerman. 

2- Para ter resultado, é preciso fazer terapia durante muitos anos? 
Na época de Freud, os tratamentos terminavam em meses. Mas, ao longo das décadas, a psicanálise se desenvolveu como um processo que dura anos. Hoje a prática não corresponde a nenhuma das duas alternativas. "A psicanálise não pode ser definida como um tratamento breve, porque exige um tempo de elaboração, e esse tempo varia de pessoa para pessoa",diz a psicanalista Dulce Barras, de São Paulo. Na sua clínica, o usua lé começar com duas sessões semanais, que podem se reduzir a uma, e o tratamento dura, em média, de três a cinco anos. Segundo Mania Deweik, o tratamento pode parecer longo para quem busca resultados imediatos contra a tristeza, o medo, a ansiedade. "Mas crescer não é um processo instantâneo. E, além disso, cada paciente tem sua história e seu ritmo", diz Mania. 

3- A análise é um tratamento caro? 
A ideia de um tratamento elitizado, que só acontece entre quatro paredes e com um paciente pagando por infinitas sessões, já não corresponde à realidade. "A psicanálise está nas creches, nos postos de saúde e nas instituições de saúde mental", explica Mania Deweik O psicanalista David Zimerman afirma que a maioria das sociedades psicanalíticas mantém serviços ambulatoriais, com preços acessíveis à população. "Além disso, é normal analista e paciente conversarem e negociar a questão do dinheiro", diz Dulce Barros.

4- O paciente fala o tempo todo do passado, da mãe e do pai? 
É importante trazer do passado as situações que continuam a perturbar ou ase repetir no presente, mas isso não significa que a análise vá girar em torno disso. "O único passado que interessa é o que não foi suficientemente elaborado, isto é, entendido e aceito. Por isso,continua incomodando o paciente", explica Mania.Segundo Zimerman, o assunto de cada sessão fica a critério do paciente -é comum que apessoa fale sobre situações cotidianas, ligadas ao trabalho ou à família. Mas, através desses temas que fluem espontaneamente, muitas vezes é possível fazer uma conexão com situações similares que já aconteceram. "Essas associações trazem compreensão. E o que tecnicamente chamamos de 'insight'. Nesse momento, o paciente se dá conta de que está agindo de determinada maneira porque tende a reagir da mesma forma. São jeitos de se comportar ligados a traumas ou relacionamentos antigos", explica o psicanalista. Nas palavras de Dulce Barros, os fatos imediatos são uma conseqüência do passado. "Na análise, a pessoa percebe que existe esse processo de repetição e que isso só termina quando há uma compreensão do que aconteceu." 

5- Tudo o que a pessoa faz tem a ver com sexo? 
Segundo David Zimerman, essa falsa crença tem origem no próprio Freud, que relacionava todas as angústias e sintomas a algum problema sexual. "Hoje essa visão se justifica só em certos casos. Na maioria das vezes, há outros aspectos a considerar e que são mais importantes do que as questões ligadas ao sexo", explica o psicanalista. A questão é que,para Freud, o conceito de sexualidade ia muito além do ato sexual genital, incluindo várias outras manifestações prazerosas. "Nesse contexto, o sexo não deve

6- Muitos pacientes se apaixonam pelo psicanalista?
"Pode acontecer Mas essa "paixão" tem muitos coloridos, não só o do desejo sexual. Pode ser uma transferência da imagem da mãe, da amante, da competidora... Importante é que isso seja analisado como qualquer outra fantasia", explica Mania. Para Dulce, muitas vezes esse jogo de sedução esconde apenas uma outra forma de resistência. "O paciente imagina que,se encantar o médico, vai ser menos censurado." Nessa situação, o papel do psicanalista é decisivo. "Ele vai, sim, lidar com os sentimentos do paciente, mas não pode ficar envolvido com ele", explica Zimerman

 7-O paciente não pode saber nada sobre o seu psicanalista?
Freud atendia em sua própria casa, sob o mesmo teto em que moravam os oito filhos, a mulher e a cunhada. Portanto, a ideia de total neutralidade do profissional não tem nada a ver com ele, mas com a interpretação que seus seguidores fizeram de sua teoria. "Acredito que é preciso estabelecer limites, mas existem formas de olhar para isso. Cabe ao analista definir até que ponto a curiosidade do paciente é normal e a partir de que momento isso se transforma em mais um problema a ser trabalhado", explica Zimerman. Em uma relação tão íntima,muitas vezes o paciente passa a ver seu analista como um amigo, com quem gostaria de, por exemplo, poder sair para tomar um café. "Mas é importante preservar a cumplicidade que se conquistou dentro do consultório. Por isso, a relação não deve mudar de formato", explica Mania, Segundo ela, não há hierarquia, mas o relacionamento não é de igual para igual. "Um fala e o outro escuta, as posições que as pessoas ocupam são diferentes. Essa não é uma relação entre amigos", conclui Mania. 

8- É obrigatório deitar no divã? 
O que define a análise não é o divã, mas a escuta do analista. Todos concordam, porém, que o divã pode facilitar "Freud atendia até 15 pessoas por dia. Não é fácil ficar submetido ao olhar do outro durante tanto tempo, tentando, ao mesmo tempo, captar o que aquela pessoa está dizendo", diz Mania. Apesar disso, os pacientes ficam à vontade para ocupar o espaço que desejam em seu consultório. Para o psicanalista David Zimerman, a pessoa fica livre para decidir "Mas considero uma conquista do paciente quando ele decide fazer análise deitado.Isso apenas demonstra que ele sente confiança e não tem necessidade de tentar controlar seu analista", Isso também não é obrigatório para a psicanalista Dulce Barros, mas ela admite que a terapia flui mais tranquilamente com o paciente deitado. "Quem usa o divã geralmente está relaxado e menos defensivo." 

9- O psicanalista interpreta os sonhos? 
O sonho é um dos caminhos de acesso ao inconsciente e auxilia o trabalho de análise. "Mas é o paciente que traz associações relacionadas ao sonho", explica Dulce. O analista ajuda e estimula a pessoa a fazer as suas próprias interpretações. "Não se trata de um oráculo,alguém que está dizendo algo que o outro não sabe... Na prática, o analista só junta aquilo que o paciente está próximo de descobrir por si mesmo", explica Mania. 

10- E muito fácil enganar o analista? 

Mesmo que o paciente minta, o analista tem como conduzir bem o tratamento. Na prática, isso não chega a ser importante, já que o analista não está preocupado com a veracidade dos fatos, mas com a forma como a pessoa conta suas verdades e também suas mentiras."Mesmo que seja falsa, a história sempre vai ter a estrutura e o jeito de ser daquela pessoa. E isso é revelador", diz Mania. Para Zimerman, é importante que o analista assinale, em algum momento, que o paciente está mentindo para si mesmo em primeiro lugar. 

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